As duas últimas semanas foram bastante introspectivas... o que me gerou um nível de ansiedade (e, por conseguinte, de cacoetes) acima da média dos últimos três ou quatro anos...
Quer dizer, começar, começar mesmo, a sequência de atos cacoéticos (bonito, isso, né? Acabei de inventar, mas um neologismo de minha lavra) foi no final do ano passado, com o final do primeiro ato da epopéia dos meus joelhos (para fins de contabilidade, vamos considerar que a saga pré-Marcos foi só o prelúdio).
Depois de... sei lá, quase um ano gastando dinheiro com remédio, consultas, palmilha, academia, vela de 7 dias, o escambau, sentindo dores inconcebíveis e incalculáveis duas vezes por semana - as quais, às vezes, me faziam ir pra casa deprimido, meu fisioterapeuta (vulgo Marcos) desistiu dos meus joelhos e me aconselhou a procurar um colega osteopata mais experiente. Isso me fez muito mal. Me jogou numa vala sentimental. Consegui me reerguer rápido, mas o sentimento de derrota estava lá, embrulhada na lama, com só a mãozinha do lado de fora, segurando meu tornozelo.
Antes de terminarem as sessões pelas quais eu já havia pago e ele encheu linguiça, ele me indicou e acompanhou na consulta com uma nutricionista naturalista. Até agora, a dieta, junto com as palmilhas, como sempre, parecem estar ajudando. Vamos ver se vou conseguir seguir a dieta a risca pelas próximas 6/7 semanas (até agora, foi assim-assim) e se vai dar resultados definitivos. Mas isso me fez também desistir um pouco dos meus joelhos. Eu já não vinha alongando diariamente, e não estou com a menor disposição de procurar o tal colega osteopata. Vou me dar um tempo também, chega de mexer no joelho por enquanto, deixa-os pousar.
Com a dieta, veio a vigilância da minha mãe. Não bastasse minha mãe ser superprotetora, ela ainda é teimosa (graças a Deus minha tia é quem cuida de mim aqui). Tá cansada de saber que eu não quero saber das asas dela, mas ela insiste em se meter na minha vida. Foi só ver o diabo do papel da dieta colado na geladeira que encasquetou que sua missão de vida da semana era convencer o filho rebelde de 30 anos que ela sabia mais do que a nutricionista, e escolheu o ápice de estresse do ano pra me encher o saco sobre isso: a tragédia de Friburgo (sobre a qual ainda vou falar em outro post). Até que me saí bastante bem: na primeira discussão sobre o assunto, esbravejei só um pouco, em que pese o péssimo momento escolhido para a discussão. Na seguinte, eu já sabia que o assunto ia voltar a baila, e me preparei melhor pra não explodir: simplesmente disse que não ia discutir sobre aquele assunto (ainda que meu pai tentasse extrair alguma coisa). Ela parou de me encher o saco, mas fez meu pai falar com um amigo do Rio pra arrumar uma consulta com um ortopedista, a qual ainda não marquei e estou devendo um retorno ao intermediário. Ponto pra mim, mas tá achando que o estresse baixou, né? Porra nenhuma, manteve o nível alto, porque minha mãe não vem sozinha.
Como meus pais não são separados (o que é BOM, antes que a dúvida se estabeleça), tem meu pai com as suas manias que já foram engraçadas e hoje me estressam, como se divertir por comer toda a comida possível antes que alguém possa perceber; usar as porras das minhas roupas, apesar dos 20 kg de diferença (pensando racionalmente, isso é coisa de viado!); não lavar a louça que usa; e outras peças de seu divertidíssimo repertório. Já entendeu porque um fim de semana com meus pais não é assim tão relaxante, né?
Depois disso, veio algo que me fez pensar bastante na maneira como me relaciono com as pessoas a minha volta... Na sexta feira de alguma dessas semanas, véspera de ir pra Rio das Ostras (foi até na véspera dessa discussão com a minha mãe), fomos a um aniversário na casa de um amigo de Gisele e durante a festa, combinamos de encontrar um casal de amigos na Cobal do Humaitá, a uma caminhada curta do local do evento. Pois bem, acabou a festa, bastante divertida por sinal, e fomos para a Cobal, encontrá-los. Apesar de saber que ia ter que dirigir no dia seguinte, não estava preocupado com a hora porque naquele momento preferia estar com os amigos. Fui encontrá-los com toda a disposição e alegria de que dispunha naquela hora, e fui recebido com exclamações de "calmaí, cara, sem violência" da parte dele, ao receber meu abraço, e "sem beijo babado" da parte dela, ao receber meus cumprimentos. Isso acabou comigo. Me jogou no fundo do poço, abraçado com a derrota. Cara, eu tenho defeitos. Muitos. Inúmeros. Incalculáveis. E tenho ciência de grande parte deles. Sou teimoso, exigente (muitas vezes, exigente demais com quem não precisa), violento, estabanado, guardo rancor, não escondo quando não gosto de alguém ou alguma coisa, enfim, estou ridiculamente longe de ser um amor de pessoa. Mas se eu tenho uma qualidade, é ser caloroso com aqueles que eu gosto, ainda que a minha maneira estúpida.
Eu não peço nada das pessoas que me cercam. Não exijo que me aceitem do jeito que eu sou. Cada um é de um jeito, e procuro respeitar isso, ainda que falhando miseravelmente na maioria das vezes. Ninguém é obrigado a gostar de mim assim. Mas me fez muito mal ser recepcionado assim. Ninguém é obrigado a gostar da maneira como expresso meu afeto. Quase derrubei a Robbie no meio da Barão do Flamengo no outro dia num arroubo de felicidade em revê-la, sem contar com os danos a coluna. Fiquei realmente preocupado. Ela não é obrigada a ficar feliz em ser hospitalizada com um abraço meu. Acho que eu dificilmente brigaria com alguém que dissesse que não gosta da minha maneira de expressar afeto. Cada um tem as suas preferências. Mas não posso evitar me sentir deprimido ao ser recepcionado com exclamações que me expulsam. Acho que eu costumo ser bastante direto e sou aberto a diálogos diretos: se eu faço alguma coisa que incomoda, é só falar comigo sem rodeios, de frente. Olhando para trás, percebo que ambos já tinham reclamado de maneira mais sutil em algum momento da minha maneira de cumprimentar os outros. Mas sutileza não funciona comigo. Fazer o que eles fizeram foi a pior opção possível para alguém que queira manter a minha amizade. Pra mim, ser recepcionado dessa maneira é o mesmo que desprezar a minha companhia; sinceramente, ainda não faz sentido para mim convidar alguém para receber dessa maneira. Entendo o lado deles, respeito-os por não concordarem com a minha expressão de afeto, mas confesso que não ainda não consegui assimilar o sentido desse comportamente, nem sei se conseguirei ainda apreciar sua companhia.
(lembrete para os parcos leitores e/ou para os que pararam de ler na metade o longo parágrafo anterior: sutileza não funciona comigo; se alguma coisa no meu comportamento os desagrada, me fale diretamente, sem rodeios, eu não vou brigar, não vou espernear, vou aceitar, pensar e consolidar minhas considerações para expô-las como réplica no momento oportuno.)
Isso, obviamente, me traz de volta a sensação de que eu não nasci pra viver em sociedade. Ou, pelo menos, na sociedade em que eu vivo. Me sinto completamente deslocado, não encontro um nicho de semelhantes em lugar nenhum. A pessoa com a qual eu me sinto mais em sintonia é a Robbie. Sempre que leio seu blog, eu penso: "nossa, não sou só eu que penso assim". Ler o blog da Robbie é como, sei lá, ser o hipotético filho do Tom Hanks em"O Terminal", uma criança que lê livros sobre uma cultura ele conhece e vivencia, mas não pode ter mais contato porque simplesmente não existe mais (além de ser um deleite para os olhos ler um blog sem erros de português). A cada dia me identifico mais com a religião dos nórdicos, segundo o retrato feito pelo Bernard Cornwell nas Crônicas Saxônicas: o mundo parece estar deslizando lentamente em direção ao caos, enquanto os deuses nos usam como marionetes para se divertirem e passar o tempo.
É impressionante, eu só vejo o mundo piorar, não vejo nada melhorar. Há não muito tempo, sei lá, há 100 anos atrás (o que não é muito, em comparação ao tempo de vida da Terra), o sujeito que tinha um emprego era capaz de ter uma casa grande, com uma família grande e alimentação farta. Hoje, a gente trabalha o dobro para ter um quinto do conforto e sustentar um décimo da família de 100 anos atrás. Tá todo mundo o tempo todo se matando, correndo contra o tempo o tempo todo, fazendo do trabalho o fim pelo qual se vive a vida, ao invés de ser o meio de se ganhar o dinheiro que permitirá curtir a vida. Ninguém tem mais respeito pelo outro, é tudo na base do eu ou ele, estou cansado disso!
No metrô, você é atropelado e se reclama está errado, devia ter pego um táxi se queria conforto. Se no cinema você pede silêncio a quem conversa durante o filme, você está errado porque devia assistir o filme em casa. Se você está dançando na arquibancada de um show de música, você está errado porque... por que mesmo? Sei lá, tu tá errado! Eu também faço isso (pelo menos, não estou sozinho)!
Cara, estou cada vez mais cansado disso tudo, de viver em sociedade, de tudo ser caro, de não ter conforto, da falta de escrúpulos e de educação... Já pensei em mudar de país, mas será que resolve?
Eu adorei Paris. Sei que um monte de gente diz que os parisienses são mal educados e tudo mais, mas, porra! Se coloca no lugar dos caras! Concebe: você vive na cidade mais magnífica do mundo. Uma cidade que há 200 anos atrás foi transformada em numa obra de arte e se mantém assim. Você está lá tomando café na rua tranquilamente, comendo seu croissant, admirando a cidade em que você cresceu, falando o idioma que você ama, aí vem aquela horda de japoneses tirando mais fotos por minuto do que sua capacidade de apreciá-las depois; em seguida, um bando de italianos falando alto e fazendo baderna; um grupo de brasileiros vestido de amarelo e se comportando como índios, trepando em monumento pra tirar foto com poses esdrúxulas e batucando pandeiro; na rabeira, a tropa de americanos sem o menor respeito pela história e cultura alheias, pelo simples fato de viverem naquele que, na sua concepção, é o melhor país do mundo; todos se comunicando num idioma que não é o seu e partindo do princípio que você é obrigado a compreendê-los, afinal, você está na Europa! Adicione agora a manada de imigrantes ilegais que lotam os subúrbios reclamando direitos que não tem (leram a parte dos ilegais?) e que atordoam os turistas com a venda de bugigangas aos pés da Tour Eiffel. Porra, eu também seria antipático se morasse em Paris! Os filhos das putas estão acabando com a minha cidade!
Isso tudo me leva a hesitar com a idéia de morar fora. Será que resolveria? Ok, em muitos lugares na Europa os estrangeiros são mal tratados. Aqui isso não acontece, de fato.
Mas que vantagem me resta em morar aqui, se os cidadãos estão se matando? De que adianta ser um nativo se os outros nativos é que são o meu inimigo? Melhor, então, ser um estrangeiro infiltrado. Pra alguma coisa esse fenótipo europeu tem que me valer, né, não?
Apesar das dúvidas, o que me prende no Brasil hoje são as minhas crianças (que são crianças humanas, ao contrário da concepção extremamente flexível de "criança" da Gisele, que engloba desde cachorro até carro, passando, rápida e eventualmente, por filhotes humanos). Hoje, não me é uma perspectiva agradável passar anos ou meses a um oceano de distância do Rafa ou do Pedro, por mais que pouco os tenha visto nos últimos meses. Por outro lado, talvez fosse até interessante pra eles, quando mais velhos, pois teriam onde ficar quando quisessem viajar pro exterior.
Família eu já acostumei a estar longe. Amigos, idem (depois que meu único amigo no Rio foi morar em Brasília, não tem nenhuma outra amizade a distância que eu não supere). Eu gosto muito do Rio no final de semana. Adoro as praias, adoro a cultura de que a roupa que se vai a praia serve pra fazer qualquer coisa, acho realmente que, como diz algum comercial que vi hoje, vivemos na cidade que inventou o verão. Mas estou cansando do outro lado da cultura carioca, de não respeitar nada, do carro parado em fila tripla pra ver o jogo na TV do botequim, do serviço ruim, dos assaltos, das pessoas que não conseguem mais escrever duas frases sem um erro de português, enfim, o lado menos glamouroso da cidade partida. Estou cansado, constantemente tenho a sensação de que não pertenço a essa cidade.
Enfim, foram semanas pensativas, de fato... de temor por Friburgo, de repensar o valor dados aos meus amigos, de repensar onde eu quero morar... Na parte de amizades, eu já vinha repensando bastante o tempo dedicado a alguns amigos em detrimento de outros e da minha família, e, avaliando o retorno disso tudo, cheguei a conclusão que talvez meu juízo de valor esteja gerando um déficit na relação entre o que eu invisto em algumas amizades e o retorno propiciado pelas mesmas. Mas quanto a onde morar... essa vai ser uma reflexão mais difícil...
Quem sabe o espera por mim em 2011?