Tuesday, March 11, 2008

Um jogo de sonho

Há um mês atrás, o Renato Maurício Prado publicou em sua coluna n'O Globo, uma crônica encomendada pelo Juca Kfouri para uma coletânea de reportagens imaginárias sobre um torneio reunindo as seleções dos títulos mundiais, mais a de 82. Ao Renato Maurício Prado coube a narrativa do jogo entre as seleções de 1962 e 2002.

Segue abaixo a reprodução da crônica (erros de português são de minha inteira responsabilidade, uma vez que a reprodução é manual, sem cópia e cola).

Juca, meu braco, jogo duro, hein? Duríssimo! Não exatamente pelo confronto técnico (em que vejo a seleção de 62, mesmo sem o Pelé, em vantagem), mas pelo preparo físico das equipes, em cada Mundial.

A de 62 já veterana, com muitos jogadores acima dos 30 (ou quase lá) e a de 2002 na ponta dos casos.

Mas vamos dar asas à imaginação e deixar rolar a bola da fantasia...

Felipão, velho malandro, não ia deixar o Mané solto, ainda mais tendo a marcá-lo o Roberto Carlos (que, mesmo antes do "meião" de 2006, nunca foi de guardar posição). Certamente, deslocaria para vigiar o Garrinha, também o Kléberson ou o Gilberto Silva (quem sabe os dois...).

E com a maior arma de 1962, inicialmente, anulada, creio que o time de 2002 poderia começar dominando a partida, na base do talento de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho e do vigor de Ronaldo Fenômeno.

Pressão no campo todo, Didi e Zito meio perdidos, diante da correria dos "moleques" e... pronto! Numa cobrança de falta, na entrada da área (há quem diga que fora pênalti, de Nilton Santos em Ronaldinho Gaúcho, mas a "Enciclopédia" deu dois passinhos adiante e o "truque" colou, de novo...), Rivaldo bate no ângulo, Gilmar se estica e ainda espalma, mas, caprichosamente, a a pelota toca no travessão e volta, na marca do pênalti, para Ronaldo Fenômeno: 1 a 0.

Feridos em seus brios, os "velhinhos" reagem. Zagallo (recuado, como sempre) cola em Rivaldo, Zito gruda em Ronaldinho Gaúcho e a defesa, aproveitando-se do esquema de Felipão, sem pontas, passa a atuar com Nilton Santos como líbero! E a partida começa a mudar de fisionomia.

Ao final do primeiro tempo, num passe longo e oblíquo ("dissimulado, como o olhar de Capitu", escreveria Mestre Armando), Didi coloca Amarildo na cara do gol e o "Possesso" ainda se dá ao luxo de deixar Roque Júnior sentado, com uma ginga desmoralizante, antes de encobrir Marcos. Um golaço: 1 a 1.

Felipão enlouquece, à beira do gramado, manda o seu time pra frente e, no intervalo, exige a vitória a qualquer custo:

- Vocês não vão perder pra esse bando de "senhores", não é?

Do outro lado, Aimoré Moreira faz preleção pra um homem só:

- Didi, vamos usar mais o Mané!

- Mas ele está sempre vigiado por dois ou três - justifica-se o craque.

- E desde quando isso foi problema? - pergunta, sorridente, o próprio Garrincha que, ajeitando as chuteiras, se aproximou, como quem não quer nada, para ouvir a conversa.

Voltam os times a campo e, querendo a vitória a qualquer custo, Felipão tira Kléberson e e lança Luizão, para reforçar o ataque.

Mas, quando a bola rola, Didi toca pra Mané e este, como de costume, domina e pára, na ponta direita. À sua frente, Roberto Carlos, Gilberto Silva e, mais atrás, na cobertura, Roque Jr.

Ele ginga uma vez, duas, três e parece não estar muito disposto a sair do lugar. De repente, simula um passe pro lado e "zás-trás", parte como um raio, rumo à linha de fundo.

O carrinho de Roberto Carlos encontra o vazio, a cobertura de Gilberto Silva é vã e Roque Jr., dizem as más línguas, até hoje está procurando por onde o Mané passou...

Quase saindo com bola e tudo, Garrinha ergue a cabeça e alça o cruzamento. No peito de Vavá, que mata e fuzila Marcos, sem apelação. 2 a 1!

Felipão se desespera, manda baixar o sarrafo e "escarrar" no "Torto", mas seu time já está descontrolado. Didi, Zito, Zagallo e Nilton Santos tocam a bola com categoria e fazem o tempo passar.

Ronaldo, numa arrancada, ainda acerta o travessão de Gilmar, mas Djalma Santos se antecipa a Luizão e evita o gol, no rebote.

Cafu e Roberto Carlos se mandam pra frente e é, nas costas deles, que Amarildo e Mané fazem a festa, nos contra-ataques.

Num deles, o Possesso é derrubado próximo à entrada da área e Didi, de folha seca, marca o terceiro dos "canarinhos" de 62.

Ao apagar das luzes, Rivaldo desconta, concluindo uma tabela com Ronaldinho Gaúcho, mas, dada a saída, Mané pega a bola, enfileira Roberto Carlos, Gilberto Silva, Roque Jr. e Lúcio e toca, de mansinho, na saída do já atarantado Marcos: 4 a 2 e fim de papo no Maraca (claro que esse jogo teria que ser lá).

Deixando o gramado, Nílton Santos abraça Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho e, com um cafuné na cabeça de cada um, profetiza (apontando também para o menino Kaká, no banco):

- Vocês ainda serão os melhores do mundo!

- Mas não agora! - completa, comum sorriso maroto o Mané.

Que, com justiça, sai de campo aplaudido de pé. Até pelos adversários, todos eles, na verdade, seus grandes admiradores.