Thursday, January 29, 2015

A faca pendurada

Toda noite a mesma sensação se repete. Conforme a noite cai, eu me sinto acuado por dois grandes relógios digitais regressivos: o primeiro, mais próximo de zero, indica que meu tempo com meus pais está acabando; o segundo, mais cruel, indica em quanto tempo eu voltarei a vê-los.

Ultimamente tenho lido notícias que me fizeram voltar a entrar em contato com a essência da minha decisão de sair do país: a violência impune. Haja vista o assassinato do surfista em SC e a soltura de pai e filho assassinos confessos do filho da Cissa Guimarães. Então estou em paz com minha decisão de sair do país.

Mas nunca achei que a perspectiva de ficar sem ver meus pais fosse tão agonizante. Sinceramente, não tenho do que reclamar: minha mãe não fez uma cara triste até agora e todos os amigos tem deixado a gente pra cima.

Mas a perspectiva de me despedir do meu pai na sexta-feira de manhã sem saber direito quando irei revê-lo é desesperadora. Ter a consciência de que esse relógio é regressivo me deixa desesperado, vê-lo se esforçando (junto comigo, ainda que eu relute em admitir) pra tentar aumentar o número de horas que cabem em um dia me corta o coração, como eu queria poder nunca mais ir embora!

Mas eu não posso. A vida é assim. Mais cedo ou mais tarde, chega a hora de seguir sozinho, para perto ou mais longe. Preciso seguir minha vida, preciso perseguir meus sonhos, nem que seja pra descobrir que esses sonhos doem muito. Mas eu preciso disso. Preciso realizar meus sonhos. Só assim me sentirei completo quando chegar ao fim da vida.

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Saturday, January 03, 2015

Dias difíceis

Hoje começamos a oficialmente desmontar o apartamento.

Quer dizer, o processo de desmonte começou há algumas semanas, quando vendemos os enfeites do buffet, mas hoje começamos a colocar roupas nas malas e, talvez por ter sido algo que tomou mais tempo, e talvez também por causa do italiano babaca que comprou a mesa da varanda, hoje foi mais pesado, o que me deu uma sensação maior de "início do fim", "proximidade da mudança", "escolha-seu-nome-preferido".

A parte mais difícil foi pensar nas crianças e nos meus pais. Lembrar do modo como o Pedro ficou quando soube da mudança não ajuda. E apesar de apoiar nas palavras, durante o Natal fiquei com impressão que o Rafa fazia o possível pra passar mais tempo junto (impressão essa reforçada pelas perguntas à minha mãe em Rio das Ostras). E aí penso também nas pessoas que vou levar meses pra rever, e aí mesmo é que as coisas ficam difíceis. Tipo, quando penso que vou embarcar num avião pra só rever minha mãe e meu pai dali a 9 meses, meu corpo inteiro rejeita tal ideia, tão artificial que esta soa.

Agora consigo entender um pouco melhor o que o Celso deve ter passado quando decidiu ir pra Brasília. Logo ele, que nunca gostou de ficar sozinho, se mudando sozinho pra uma cidade que não conhecia e a qual sempre foi objeto de piada. Difícil imaginar um cara que valoriza estar perto da família tanto quanto eu indo morar em Brasília. Naquela época, sem dinheiro pra poder ver a família em intervalos curtos, por mais que as passagens tivessem um preço razoável em termos de mercado, morar em Brasília ou na Alemanha eram opções provavelmente equivalentes. O que me faz pensar também que, se ele prosperou em ambiente tão inóspito, eu também consigo :)

Nessas horas é difícil pensar objetivamente. Mas, pensando objetivamente, o que aconteceria se voltássemos atrás e resolvêssemos ficar?

  • Eu continuaria a passar meses sem ver o Pedro;
  • Eu continuaria a passar meses sem ver o Rafa;
  • Eu continuaria a ver meus pais uma vez por mês;
  • Eu continuaria a ver meu irmão uma vez a cada dois meses;
  • Eu continuaria dividido entre morar de aluguel em algum apartamento razoavelmente próximo do trabalho e comprar uma casa no cu do Recreio, gastando um número crescente de horas do dia preso no trânsito;
  • Eu continuaria desestimulado em trabalhar na Petrobras.
E aí eu me arrependeria amargamente, pelo resto da vida, por ter desistido de mais um sonho em troca de nada. Porque tenho certeza que tudo isso aí de cima aconteceria. Talvez uma ou outra coisa fosse diferente nos primeiros meses, mas depois todos voltariam às suas rotinas, e tudo se resumiria a isso aí de cima. Tudo se resumiria a basicamente continuar a me sentir um peixe fora d'água mesmo no meio dos mais próximos: enquanto uma multidão discute variações da ação de passar o dia bebendo, minha voz solitária já se calou e desistiu de procurar companhia pra viajar, frequentar restaurantes, praticar esportes, conhecer lugares, etc.

Além de ser um sonho, eu preciso disso. Preciso porque eu não poderia viver comigo mesmo reclamando da Petrobras sem fazer nada com relação a isso. Preciso porque eu sempre tive o sonho de morar no exterior e não vou conseguir olhar nos olhos dos meus filhos e dizer a eles que sigam seus sonhos quando eu mesmo não o fiz. Preciso porque eu preciso aprender mais. Preciso porque eu preciso de mudança com frequência pra me sentir vivo.

Eu sei que não vai ser fácil. A cada dia eu tenho mais noção disso. Talvez pra mim até seja mais fácil do que pra Gisele, afinal, vou ter um trabalho em que me concentrar e pra me distrair assim que chegamos. Mesmo assim, o início será terrivelmente difícil. Além da saudade de casa, haverá meses intermináveis de gelo numa cidade que desconhecemos por completo, sem companhia que não a de um para com o outro. 

Ainda assim, ironicamente, essa perspectiva me apavora menos do que as lágrimas nos rostos dos meus familiares. Acho que nesse caso o desconhecido trabalha a meu favor. Afinal, aquilo que desconheço tem iguais chances de me alegrar ou entristecer, certo? No entanto, se abrir mão disso, serei eu que em eu leito de morte chorarei. E não posso fazer ou deixar de fazer algo tão importante pra mim por causa dos outros. Afinal, na hora de prestar contas com a minha consciência, o único insatisfeito com minhas ações serei eu mesmo, e aí será tarde demais pra refazer qualquer coisa.

Engraçado. Finalmente entendi a famosa frase de Fernando Pessoa: "viajar é preciso, viver não é preciso". De fato, está longe de ser preciso, e como eu gosto dessa imprecisão :)