Friburgo
Na entrada do show de terça da Amy o horizonte estava escuro, prometendo um dilúvio. Na saída do show, o asfalto estava molhado, a grama encharcada e me lembro de pensar que a chuva não devia ter sido assim tão forte, uma vez que já tinha acabado.
No dia seguinte pela manhã, vi o vídeo do teleférico descendo e não liguei muito, achei que era só mais uma temporada de estragos causados pela chuva, até brinquei com a situação.
Na hora do almoço, chega uma mensagem do Diego se estava tudo bem com a minha família e tudo mais. Pensei: "bah, que besteira, preocupação excessiva de quem está acompanhando pela imprensa".
A partir daí as coisas começam a ficar confusas na minha cabeça, acho que naquele dia a noite, ao chegar em casa, fui ver as fotos de Friburgo e aí começou a pior semana dos últimos anos.
Não vou ser hipócrita de contar uma história de redenção pessoal do tipo "Acabou a cidade que sempre amei e nunca soube" ou algo do tipo. Nunca gostei de morar em Friburgo e sempre disse isso. Houve inúmeras vantagens em crescer lá, as quais forjaram inúmeras qualidades em minha personalidade. Mas reafirmo que nunca gostei das pessoas de lá e do clima de burguesia que eu percebia.
Mas, querendo ou não, foi a cidade onde cresci. E ver a destruição de tantos pontos familiares me deixou sem chão.
Eu via as fotos na internet e sabia exatamente onde ficava cada ponto tomado pela lama ou destruído pelos deslizamentos. Vi onde costumava ficar o estacionamento onde sempre deixava o carro, vi os escombros do prédio onde a avó da minha prima morava, vi a ponte que atravessava todos os dias em direção ao centro da cidade pela metade, vi a rua do meu colégio tomada por mais de meio metro de lama, vi o prédio do meu avô inacreditavelmente resistir de pé em meio a outros prédios que sucumbiram a lama, vi a avenida que leva ao clube parecendo uma enorme pista de bobsled na lama. E não vi nada da periferia, de onde mora Paulinho, meu maior e mais antigo amigo, parte da minha família.
Ouvi meu pai contar que a casa onde morávamos tinha desabado com a família de moradores dentro, nenhum dos quais sobreviveu, e esse foi o golpe mais duro de todos. Eu não queria isso. Ninguém queria isso, óbvio. Eu adorava aquela casa. Grande parte das melhores recordações da minha vida até agora remetem àquela casa. Mesmo depois de voltar a morar no Rio, era onde eu chamava de casa, era a minha unidade. Cinco anos depois de a vendermos, ainda não há outro lugar que pra mim signifique a unidade da minha família. Convidar e receber amigos lá, para mim, era um ato emblemático de um significado profundo (Alê, você foi convidada!!).
Ainda não fui a Friburgo, ainda não vi a minha casa (sim, eu ainda a chamo de minha casa) no chão. Não sei se quero, mas talvez seja necessário no meu processo de cura. Só agora estou conseguindo chorar, ainda que timidamente, pela família que morreu soterrada na casa que era minha. Eu não queria nada disso pra ninguém. Queria que eles fossem tão felizes lá quanto eu fui. A primeira coisa que pensei quando ouvi a notícia dos quatro mortos foi: "eu larguei eles lá para morrer". Eu sei que racionalmente isso não faz sentido. Eu sei que não foi culpa minha nem de ninguém. Mas mesmo assim não consigo parar de me sentir responsável.
Talvez agora que consegui botar isso pra fora consiga aceitar melhor e seguir em frente mais rápido. Ficar 5 dias sem notícias de Paulinho foi aterrorizante. Felizmente a sua casa não sofreu nada. Seu consultório foi tomado pela lama, mas nem eu nem ele nos preocupamos muito com isso. Até agora não sei se algum conhecido morreu, os mais chegados eu sei que estão bem. Paulinho sofreu bem mais do que eu, perdeu muitos amigos; até por isso está se importando tão pouco com o consultório.
Queria fazer alguma coisa, mas ainda não sei o que nem quando. Só sei que em fevereiro vou a Friburgo. Quero visitar a cidade e levar donativos. A população está precisando demais. A cidade está arrasada. O ar e a água estão poluídos com bactérias e coliformes fecais. A auto-estima da população está 7 palmos abaixo do chão. Preciso fazer alguma coisa pela cidade onde cresci.
(importante: isso aqui é só um diário, não estou postando nada disso pra arrecadar donativos, não sintam a tentação de doar alguma coisa pra se ver livre de alguma culpa, pelo amor de Deus, façam o que bem entenderem)
A dor ainda está cicatrizando. Uma hora vai passar. Talvez visitar a cidade em fevereiro seja bom para não cutucar demais a ferida. Tenho plena consciência de que sou um mero bufão, em comparação a quem tem que conviver com a reconstrução da cidade e de suas casa, e trocaria de lugar de bom grado com quem perdeu tudo e não tem perspectiva de reconstruir sua vida. Eu tenho uma sorte absurda, tenho uma família que sempre me deu tudo do bom e do melhor, e me ensinou o valor do dinheiro; amigos escolhidos a dedo e que me aceitam e gostam de mim do jeito que eu sou; uma namorada que não mereço; estudei nas melhores instituições e ganho um salário excelente numa das maiores empresas do mundo; tenho muito mais do que mereço e muito mais do que essas pessoas que perderam tudo podem sonhar em conquistar em duas vidas. Por isso tudo, trocaria de lugar com elas sem pestanejar.
Tomara, Deus, que eu consiga ser de ajuda a essas pessoas e elas possam reconstruir suas vidas rapidamente. Olhai por eles, Pai, que precisam muito mais da Sua atenção do que eu. Amém.




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