Vida em sociedade... que dureza...
Pois bem, eis que um dia desses voltamos pra casa de carro e, ao deparar com nossa vaga de garagem, está quase tomada pelo vizinho.
A vaga dele fica encaixotada, com o nosso carro a direita, paredes a frente e a esquerda, e um vizinho atrás, sobrando nada além da diagonal pra ele sair. A vaga dele é escrota, com isso concordo plenamente. Tanto concordo que sempre procuro parar um pouco mais pra frente, de forma que ele possa sair com um pouco menos de dificuldade (mas isso ninguém vê, né?).
Mas daí a parar com a roda de trás quase na minha vaga também já é sacanagem, né? Me compadeço da dificuldade dele, mas também não é justo eu pagar por sua vaga ser torta. Pois bem, tirei foto, mandei pra administradora, a qual disse que ia resolver.
Pois bem, passa a semana, vou pra rua ontem (perceba-se que normalmente eu não tiro o carro da garagem mais do que duas vezes num final de semana), chego às 01:00h e tá lá o carro do vizinho de novo quase tomando as duas vagas pra si. Penso eu: "ou o papo da administradora não adiantou de nada, ou esse cara tá de sacanagem". Pô, na boa, isso é falta de consideração. Tudo bem que eu continuo conseguindo entrar e sair, mas da mesma forma que eu paro mais pra frente pra tentar dar-lhe um pouco mais de conforto, custa parar um pouco mais pra lá e me deixar um pouco mais de conforto? Dessa vez foi demais. Subi e escrevi um bilhete da forma que entendi ser a mais educada possível: "Prezado vizinho, você poderia, por favor, procurar estacionar dentro do espaço demarcado? Da maneira como está estacionado, dificulta a entrada em minha vaga. Grato, Felipe (apto 402)". O tiro pode ter saído pela culatra, posso ter sido extremamente grosseiro, mas juro que me esforcei. Pedi a Gisele pra revisar e tudo. Fui lá e deixei o bilhete preso ao parabrisa do vizinho.
Pois bem. Hoje as 21h toca o interfone. Era a vizinha. Parecia estar com a voz meio vacilante, mas, como não a conheço, não faço a mínima ideia se era sua voz normal ou se estava embargada. Disse que da próxima vez que o carro estivesse incomodando, que eu avisasse, e ela desceria, moveria seu carro ou manobraria o meu. Acho que ela estava sendo sarcástica, mas, enfim, preferi não levar pra esse lado. Disse que mora aqui há 18 anos e nunca teve problema com nenhum morador, que eu descesse e verificasse se o carro estava bem posicionado, avisasse se estava ok e reforçou que, em caso de problema, ela poderia manobrar meu carro. Agradeci, desejei boa noite e tomei um telefone desligado na fuça. Coisas da vida, né?
Pois bem, fui lá, olhei, estava perfeito. Voltei pra casa, pensei: "bom, já que ela pediu pra avisar se estava tudo bem, vou ligar de volta e avisar que está tudo bem". Atende o marido, a vizinha tinha descido. Expliquei a situação, disse que estava ligando pra agradecer e dizer que estava tudo ok, o marido explicou que eles paravam torto porque a vaga é escrota (não com essas palavras, tô encurtando o papo), o carro de trás as vezes para pra frente e dificulta, normalmente eles paravam melhor (de fato, costumam parar), mas não tinham reparado se estava torto, pode ter acontecido e tals. Eu disse que entendia, inclusive, não sabia se tinham reparado, mas eu procurava parar mais pra frente pra facilitar a vida, não quero que eles tenham um trabalho da porra manobrando para parar o carro reto, mas, de fato, nessas duas vezes tinha me atrapalhado. Tentei resolver a situação me comunicando com eles. Não sabia se havia feito da melhor forma, até pedi desculpas caso não tivesse logrado êxito, mas resolvi falar diretamente com eles, ao que o marido cortou dizendo que eu deixei bilhete, não me comuniquei diretamente. Enfim, aquela lenga lenga do inferno, muito obrigado, boa noite. (Alguém ouviu "desculpa" do outro lado da linha? Nem eu.)
E aí eu fiquei encucado, pensando nessa porra. Eu tentei ser o mais educado possível, por que essas pessoas se sentiram ofendidas?
Confesso que até agora não sei ao certo o que pode ter causado ofensa. Eu poderia ter deixado um texto mais simpático? Eu poderia ter ido falar pessoalmente com eles? Sim, poderia. Mas de fato produziria uma reação diferente? Sinceramente, não sei. Pra mim, conotação e contexto são inseparáveis. Por exemplo, no meu contexto diário de Petrobras, se referir ao destinatário de uma nota como "prezado" é absolutamente normal (e enfadonho, até, eu diria). Pra alguém em outro contexto pode significar um desafio a moral. Da mesma forma como eu detesto ser chamado de "querido", alguém pode se ofender ao se ver chamado de "prezado". Eu poderia ter escrito algo do tipo "Oi, vizinho, tudo bom? Como vai? Você se importaria de parar seu carro um pouco mais pra lá? Tá meio ruim pra eu entrar na minha vaga. Muito obrigado!". Mas será que essa forma de escrever iria, de fato, melhorar os resultados? Eu não conheço o sujeito, não sei o contexto dele. Não sei se é solteiro ou casado, mais velho ou mais novo, se acorda cedo ou acorda tarde, se é bandido ou polícia, não sei nada, absolutamente nada sobre ele. Nesse contexto, o risco de ele achar o segundo texto melhor ou pior do que o primeiro são absolutamente iguais. Na hora, achei (e continuo achando) que um tom mais impessoal seria a forma menos pior de se endereçar a alguém. Não foi? Paciência, ainda não sou adivinho.
Da mesma forma, poderia eu tê-lo abordado pessoalmente? Sim, poderia. Mas, de novo. Eu não sei nada sobre a pessoa. Imagina se o cara é solteiro, tá comendo todas, o apartamento do cara é um verdadeiro matadouro, infestado de gonorréia e todas as doenças venéreas possíveis. Se eu bato lá quando cheguei da rua, o mano não vai ter chegado da night ainda. Se bato lá meio dia, corre o risco de eu acordar o cara. E aí, que horas eu bato lá? Com quem eu falo? Como abordar a situação? Qual o tom mais adequado? Quem garante que o sujeito não ia se ofender do mesmo jeito? Estamos no Rio, ninguém aqui gosta de ser chamado a atenção, todo mundo gosta de fazer o que dá na cabeça na hora em que quer (eu inclusive), qual a melhor forma de se abordar a situação?
Porra, na boa, não tem resposta certa. Tinha que escolher uma e escolhi a mais impessoal. Se a pessoa não gosta de impessoalidade, não tenho como adivinhar.
Não sei, acho também que a pessoa confunde antiguidade com infalibilidade. O fato de morar aqui há 18 anos lhe concede sabedoria e distinção absoluta entre certo e errado. "Ora, se até hoje ninguém reclamou, eu só posso estar certo". Mas em nenhum momento a pessoa considera que ela pode estar há 18 anos incomodando alguém que simplesmente não reclama? Ou que ela possa ter errado dessa vez?
Aliás, se o tal carro de trás fode com a vida do vizinho quando para mais a frente, por que não chegar pra esse sujeito e pedir a ele que pare também dentro da sua vaga? Quer dizer, o sujeito prefere se orgulhar de ter 18 anos sem problema as custas das suas manobras diárias do que se manifestar contra o mal feito do vizinho. Por quê, meu Deus, por quê?! Juro que não entendo porque o ser humano prefere se foder sozinho manobrando o carro todo dia a confrontar o próximo. Aliás, o que significa "ter problema"? Será que aos olhos dele eu sou agora uma pessoa "problemática"? Manifestar insatisfação é chamar pra briga? Bilhete é ofensa? Sério, eu fiz algo demais ou fora dos padrões sociais aceitos?
Ainda tive que aturar o sujeito falando que meu carro é pequeno e "dá pra entrar". Ora, diabos, se eu parar atravessado na porta da casa dele, ele também pode se espremer pelo meu lado e entrar, mas isso é certo?
Agora que botei pra fora, posso dormir mais tranquilo! :) Mais uma sessão bem sucedida de auto-terapia! :D (o blog é meu e eu escrevo o que eu quiser! :P )



