A faca pendurada
Toda noite a mesma sensação se repete. Conforme a noite cai, eu me sinto acuado por dois grandes relógios digitais regressivos: o primeiro, mais próximo de zero, indica que meu tempo com meus pais está acabando; o segundo, mais cruel, indica em quanto tempo eu voltarei a vê-los.
Ultimamente tenho lido notícias que me fizeram voltar a entrar em contato com a essência da minha decisão de sair do país: a violência impune. Haja vista o assassinato do surfista em SC e a soltura de pai e filho assassinos confessos do filho da Cissa Guimarães. Então estou em paz com minha decisão de sair do país.
Mas nunca achei que a perspectiva de ficar sem ver meus pais fosse tão agonizante. Sinceramente, não tenho do que reclamar: minha mãe não fez uma cara triste até agora e todos os amigos tem deixado a gente pra cima.
Mas a perspectiva de me despedir do meu pai na sexta-feira de manhã sem saber direito quando irei revê-lo é desesperadora. Ter a consciência de que esse relógio é regressivo me deixa desesperado, vê-lo se esforçando (junto comigo, ainda que eu relute em admitir) pra tentar aumentar o número de horas que cabem em um dia me corta o coração, como eu queria poder nunca mais ir embora!
Mas eu não posso. A vida é assim. Mais cedo ou mais tarde, chega a hora de seguir sozinho, para perto ou mais longe. Preciso seguir minha vida, preciso perseguir meus sonhos, nem que seja pra descobrir que esses sonhos doem muito. Mas eu preciso disso. Preciso realizar meus sonhos. Só assim me sentirei completo quando chegar ao fim da vida.
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...




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