Dualidades de carnaval
Todo ano, nessa época, fico entre a cruz e a porra da espada. Explico.
Eu realmente gosto de carnaval. Adoro samba enredo, cresci ouvindo muito. Quando escuto a bateria, me arrepia a alma e não consigo ficar parado. Adoro as fantasias, sacanear as "piranhas", rir com as fantasias engraçadas. Adoro sair em bloco, lavar a alma cantando samba-enredo o dia inteiro.
Mas, ao mesmo tempo, detesto o carnaval. Novamente, explico.
Detesto comportamento individualista. Detesto gente fazendo esporro na hora que quer, no local que quer, sem se preocupar com o próximo. Detesto gente bêbada fazendo o que quer. Detesto o clima de desrespeito geral ao direito do próximo. Detesto não conseguir chegar nos lugares porque qualquer tipo de transporte, público ou individual, está lotado e impassível se uso. Detesto ficar puto, reclamar, saber que estou certo e ter que ouvir "Relaxa, é carnaval". Detesto não ter pra onde ir, porque o país inteiro entra nesse transe de desordem e permissividade, não me resta alternativa senão a clausura.
Logo, é uma época terrível pra mim. Fico louco pra sair de casa, mas quando saio, fico desesperado pra voltar. E meus dias se passam em ciclos de sair e voltar, sair e voltar. É um inferno mental que não consigo, sequer, ajuda pra resolver, afinal, é a minha própria cabeça, quem tem que se entender com ela sou eu, certo?
Hoje mesmo houve 2 exemplos disso. Ok, saímos de casa tarde, depois das 10h, com a intenção de ir pro Bloco da Favorita, em São Conrado. Pensamos "vamos fazer o certo, favorecer o trânsito, etc, vamos de transporte público". Não conseguíamos taxi mesmo, só reforçou nossa preferência pela combinação metrô + ônibus. Ao saltar na Gal. Osório, tentamos um taxi. O motorista se recusou a ir pra São Conrado. Ok, vamos de ônibus mesmo. Todos que passavam em direção a São Conrado estavam absolutamente lotados, a velocidades absurdas, com letreiros apagados e tudo que tinha direito pra fugir dos pontos igualmente lotados em Ipanema. Voltamos 2 quadras, pontos de ônibus igualmente lotados, ônibus lotados e apagados, tudo igual. Olhamos pro relógio: meio-dia. Se os pontos estavam lotados, se os ônibus estavam lotados, e todos iam pro mesmo lugar, então lá também estaria insuportavelmente lotado. E depois seria o mesmo perrengue pra voltar pra casa. Tomamos a melhor decisão do dia: voltar pro metrô e ir almoçar na Glória.
Almoçamos, pegamos o metrô e seguimos a pé pra casa (pegar ônibus? tá maluco?!). No meio do caminho, passando pelo posto de gasolina, o sujeito joga o carro em cima da gente pra entrar no posto. Interpelado, se recusa a sequer cogitar a hipótese de estar errado. Essa é a parte em que mais odeio o carnaval. Quer dizer, normalmente, todo mundo nessa cidade acha que está certo 100% do tempo, o que só piora no carnaval. Eu estava quase querendo que o velho abrisse a boca pra me xingar, tudo que eu queria era despejar minha frustração em alguém. Felizmente pra todos ele não o fez.
Já cheguei a conclusão que não volta mais o tempo em que gostava de pular carnaval. Desisti de curtir, chega. Bons tempos em que o Rio de Janeiro ficava deserto no Carnaval, e este se resumia ao desfile das escolas de samba.




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