Anos 80: a década... perdida?
Pois é, hoje me peguei pensando nisso... eu cresci meio que acreditando que os anos 80 foram uma bosta mesmo, eu até hoje não gosto de muitas bandas dessa época, definitivamente muitos filmes viraram clássicos da sessão da tarde, mas.... e a década de 90? O que se mantém da década de 90?
É inegável que em, comparação às décadas de 60 e 70, a de 80 foi uma míngua. Mas fale-se o que quiser, a produção cultural da década de 80 é reverenciada até hoje.
Talvez a década de 80 seja mais mal compreendida do que efetivamente ruim. Os anos 80 foram uma época de libertação global das ditaduras, e isso se refletiu na produção cultural. De repente não havia mais censura, podia-se escrever uma música que se esmerava em ser boba e curtir o gosto da liberdade em colocar nas rádios algo bobo e simples, que falava sobre o dia a dia. Não era mais necessário criar uma letra super rebuscada, projetada para passar pelos censores. Não havia mais necessidade de sequestrar políticos estrangeiros, temer ser acusado de subversão, o sucesso dos Trapalhões na TV e no cinema refletia a alegria com a recém adquirida liberdade.
Então, em comparação com as letras do Chico Buarque, é óbvio que as músicas da Blitz pareciam uma bosta. Mas era uma bosta com orgulho. E aí viram os chatos da crítica e rotularam essa de "A Década Perdida", assim mesmo, em letras garrafais.
Mas os fatos, que também são umas bestas, quando isolados, não dizem bem isso. A produção cinematográfica dos anos 80 é até hoje marca a ser batida. Poucos filmes batem as marcas em números de espectadores dos Trapalhões e da Xuxa, e estamos falando de uma época de metrópoles menos desenvolvidas, sem Cinemarks e UCI's. Sobre a produção musical, então, nem se fala. Muitas bandas que estouraram nos 80 continuam tendo um grande público fiel, mortos ou vivos: Iron Maiden, Bon Jovi, Cazuza, Legião Urbana, Kid Abelha, Titãs, e vou parar por aqui senão não termino de escrever.
Aí vieram os anos 90, quem tinha um mínimo de consciência de seu papel no mundo durante os anos 80 começa a virar gente grande e tem essa liberdade toda nas mãos. E aí, o que acontece? O que sempre acontece quando adolescente tem liberdade demais e controle de menos: barbarizou.
Ok, a mídia sempre estava cercada de drogas, mas os 90 foram uma festa. Tanto que não sobrou quase ninguém pra contar história (o Keith Richards e os Stones são uma categoria a parte, esses fdp não têm mais fígado): Raimundos foi pra vala, com Rodolfo pegando o microfone do pastor; Charlie Brown Jr sobrevive; Nirvana, bem... melhor falar dos Foo Fighters. Mais alguém? Eu, sinceramente, não consigo lembrar de mais ninguém, mas dêem um desconto porque tá tarde.
Anos 90 em resumo: aqui se fez, aqui se consumiu. Acabou o milênio, acabou a produção, pouca coisa sobrou ou é relembrada (opinião minha!).
Incluindo o futebol. Até a Copa de 98, era possível formar 3 seleções de craques mesmo, de decidir jogos. Até o início dos anos 90 era impensável um meio de campo de seleção brasileira com menos de 2 meias. Aí veio o Parreira, Romário e Bebeto ganhando a copa de 94, a de 98 ainda tinha bastante gente boa (ainda que o Ronaldo estivesse a anos luz do Romário jogando com uma perna só).
Na TV, nem se fala: o domínio foi todo do Luciano Huck com suas bundas bailarinas (pode escolher a época: Feiticeira, Tiazinha, Dani Bananinha); Gugu, seu táxi e sua banheira; Raul Gil e seus pentelhos cantores; e last but not least, Fausto Silva (sem comentários).
No cinema, sem a criatividade dos 80, investe-se pesado em efeitos especiais e preguiça nos roteiros: dá-lhe HQ!
E aí veia a primeira década do século 21! Eis que finalmente iríamos ver skates flutuantes, carros viajando no tempo, ciborgues pelas ruas de Los Angeles, Hal 9000 e o escambau... não iríamos?
Bem, os anos 00 conseguiram ser ainda mais medíocres que seus antepassados... senão, vejamos, o que apareceu nessa década?
Na TV, o maior sucesso brasileiro da década foi uma sigla: BBB. E a Playboy agradece muito todos os dias por essa bela invenção, que só manteve a tradição de bundas de 90. No exterior, nada bombou mais do que Lost. E nunca os seriados foram parte tão importante da produção cultural americana. Por sinal, virou um oásis para os astros sem espaço dos 80 (vide Glenn Close em "Damages", Jim Belushi em "According to Jim", James Gandolfini em "Sopranos", Kiefer Sutherland em "24".... emblemático, não?). Obviamente houve sucessos retumbantes: Friends, Seinfeld, Sopranos, Band of Brothers, mas nenhum astro desses emplacou mais nada.
Na música... bem... teve o Nx0, o Fresno, a Luka, a Luciana Mello, a Vanessa da Mata, o.... quem mais mesmo? Ah, sim, teve o pessoal dos anos 80 estourando de novo. Sabe aquela galera que era uma bosta? Ainda estão vivos?? Pois é... emblemático, não? Nos 00, o Paralamas voltou a encher casas de show, os Titãs viraram uma banda de rock cultuada, o Kid Abelha gravou Acústico MTV e tudo, o Iron Maiden fez turnê relembrando as turnês dos anos 80, ... que cousa, não? (Ok, tem o Green Day, mas que evoluiu, deixou de falar sobre uma menina desesperada com o mundo planejado para ela para falar sobre a psicose americana traduzida na sua predileção pelo Bushinho, o qual governou durante a maior parte da década 00... hum... emblemático de novo, não? :D )
No cinema, bem... teve a volta de Star Wars, a volta do Batman, a volta do Homem Aranha....
No futebol, bem... o Romário foi artilheiro do Brasileiro com 39 anos, a seleção foi dirigida pela galera de 80 (Parreira em 2006, Dunga em 2010), o Petkovic foi o destaque do Flamengo hexacampeão aos 36 anos...
Se fosse pra rotular, eu daria o nome de "Década Preguiçosa" para os anos 00, pois não me recordo de outra época de tão poucas novidades na produção cultural.
Aliás, um belo complemento (já postado nessa baderna que é esse blog) do imortal Saramago, que eu associo a década 00: "Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
Enfim, talvez eu esteja escrevendo um texto altamente parcial, minha visão pode estar completamente equivocada, mas, ainda assim, considero um ponto de vista válido.
Pode ser consequência de eu ter nascido nos 80, mas eu escuto muito mais Legião, Paralamas, Cazuza e Iron, do que Raimundos, Nirvana e quem mais tenha sobrevivido. Foo Fighters e Green Day são gratas exceções.
Mas eu tenho a teoria de que o tempo anda em ciclos, de maior ou menor intensidade. Eu vejo, por exemplo, a sociedade gradualmente se encolhendo amedrontada e voltando a viver em burgos, deixando as estradas para os ladrões. E vejo que, historicamente, quando a produção cultural cai na mesmice, a tendência é a geração seguinte romper barreiras. A Lady Gaga, goste-se dela ou não, parece estar dando alguns passos na direção de algo novo, usando a internet para massificar sua música, algo parecido com o uso que o Michael Jackson fez da MTV. Quem sabe tudo não será mais divertido entre 2011 e 2020?



