Wednesday, April 24, 2013

Meu pai

Agora há pouco estava fazendo uma mini-redação pra aula de alemão de amanhã. Era pra falar sobre a casa dos meus sonhos, e, em vários aspectos, só conseguia descrever a casa onde cresci, em Friburgo.

Até recentemente, nunca tinha me dado conta do quão grande era aquela casa, e quão abençoado eu sou por ter crescido lá. Me criou o "mau" hábito de não me contentar com nada menor do que ela, e querer que meus filhos tenham o mesmo que eu: uma casa onde possam jogar futebol, basquete, brincar de pique, interagir com bichos, levar os amigos, jogar futebol dentro de casa, rolar na lama, acordar com passarinho e dormir com sapo. Hoje em dia isso é tudo que eu quero. Infelizmente, sei que não vou consegui-lo no Brasil, porque nunca conseguiria me sentir tranquilo o suficiente pra morar numa casa dessas fora de um condomínio. Mas é o sonho que vou perseguir até o fim da minha vida.

E aí, pensando nas coisas da vida, passei a pensar no meu pai, e lembrei que há algum tempo queria escrever sobre ele. Então, lá vai. Lê quem quer.

Quem me vê brincando com crianças diz que eu tenho jeito com elas, mas não é verdade. Eu só faço com elas o que meu pai faz comigo até hoje. Jogar pro alto, apertar, rodar, jogar no chão, nada disso é novidade, quem me ensinou foi meu pai. E eu nunca parei pra pensar de onde saiu isso.

No último final de semana ouvi meu pai falando que fazia isso comigo e com meu irmão porque ele nunca teve irmãos, então fazia com a gente o que ele queria ter feito com um irmão quando pequeno. Aliás, quem são nossos pais? O que sabemos de fato sobre eles? Sobre o seu passado? Sobre a sua vida antes de nós?

Eu me sinto muito feliz e muito sortudo por tê-lo como pai, porque posso dizer com todas as letras que é o melhor pai do mundo. E não sou só eu quem o diz. Paulinho o tomou pra pai. Rodolfo uma vez disse que queria que ele fosse seu pai. Quantas vezes meus amigos não pediram pro meu pai ser o técnico do time de futebol? Quantos amigos eu não ouvi dizendo que queriam um pai como esse? A melhor parte disso tudo é que eu sempre soube que eu tinha o melhor pai do mundo! :D

Meu pai, além de tudo, é milagreiro. Eu sempre adorei ir ao cinema com ele. Uma vez eu estava gripado, quando morávamos em Friburgo, e há uns 3 dias eu não melhorava. No 3o dia (nem lembro que dia da semana era), a única coisa que me lembro é meu pai chegando em casa mais cedo, e me levando pro cinema. Foi todo o remédio que eu precisava. Voltei pra casa como se jamais tivesse ficado doente.

Eu adorava (e adoro) fazer tudo com meu pai. Dispenso a companhia de qualquer um pra jogar bola com ele e só com ele. Paro tudo que estiver fazendo pra ver filme com ele. Só não consigo acompanhá-lo na caminhada, mas estou sempre atrás dele. E sempre que deitava no peito dele, o seu cafuné me fazia afundar de sono em pouco tempo.

Meu pai sempre foi o mais engraçado, aquele que todo mundo pedia pra contar piada, aquele que todo mundo seguia, a alma de qualquer festa.

Meu pai sempre foi meu maior exemplo pra tudo na vida. Por causa dele, sei perfeitamente como eu deveria me portar, mesmo não conseguindo fazê-lo a maior parte do tempo. Com meu pai aprendi a ser crítico e esperar sempre o que é certo e o que é o melhor. Infeliz e usualmente me chamam de reclamão por isso, mas eu tenho convicção do que é certo e vou reclamar até sair certo, conforme meu pai me ensinou. Meu pai me ensinou a humildade, apesar de eu ser péssimo nisso. Meu pai me ensinou a respeitar as pessoas mais pobres, e até hoje continua me ensinando, quando dispensa o pagamento de uma consulta a uma pessoa da roça (e ele já fez e faz muito isso). Meu pai até hoje me ensina que pedra rolando não cria limo, pois ele não para quieto e está cada dia numa cidade diferente, aprendendo e praticando técnicas novas. Meu pai me ensina pelo seu exemplo a importância de se manter atualizado e o prazer que isso te proporciona. Meu pai me ensinou a gostar de esportes, de todos eles: futebol, handebol, basquete, vôlei, natação, judô, capoeira, ping-pong, pode escolher. Até hoje colho os frutos desse gosto passado pelo meu pai, através dos inúmeros amigos que fiz dentro de 4 linhas.

Nem tudo foram sempre flores, para o bem ou para o mal. As maiores decepções da minha vida foi meu pai quem deu. As maiores desilusões foram também por conta dele. Nada me machucou mais na vida do que ver minha mãe na janela a noite esperando ele chegar do bar, ou ter que pedir a ele que diminuísse na bebida. Esses momentos foram a desconstrução do herói, algo que eu não desejo a ninguém, especialmente aos meus filhos.

Os maiores exemplos também foram dele. Poucas vezes vi meu pai errar um diagnóstico. Meu pai me ensinou sobre ética, mesmo cometendo alguns deslizes e mesmo eu sendo um péssimo aluno nessa matéria.

Por tudo que fez, ou mesmo considerando tudo o que fez, meu pai sempre será meu herói e meu espelho.

Eu sei que um dia chegará a hora de perdê-lo, e eu tenho um medo absurdo desse momento. Tenho certeza que não estarei preparado, e tenho certeza que será uma responsabilidade absurda ser para os meus filhos o que ele é pra mim. Mas é uma das poucas certezas da vida, para o bem ou para o mal, não tem o que fazer.

O melhor a fazer é aproveitar o presente, e dar graças a Deus todos os dias por poder encher a boca pra dizer: eu amo meu pai :)

1 Comments:

At 7:56 AM, Blogger Alessandra Lessa said...

Genteeee, que lindo!!!
No churrasco da Gi eu vi o carinho entre vocês dois, é de emocionar! :)
Muito legal você ter essa relação com ele, é bem parecida com a que eu tinha com o meu pai.
Adorei o post. :)

 

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