Thursday, February 10, 2011

Vagabundo FC

Já repararam como a cada dia mais gente mata e morre em defesa da honra futebolística? Sim, é claro que já repararam, não tem nenhum idiota lendo isso aqui, duh!

Há algum tempo que eu ando de saco cheio dessa parte passional do velho e violento esporte bretão. Menos mal que ultimamente eu tenho visto jogadores percebendo isso também.

Recentemente o Ronaldo publicou na sua assessoria de imprensa pessoal (vulgo Twitter) algo que os torcedores profissionais esqueceram: gente, futebol é entretenimento. Só isso. É um espetáculo como outro qualquer. Você vai a bilheteria, compra um ingresso, assiste, bate palmas ao final se foi um evento de qualidade, vai embora pra casa e dorme.

Porra, alguém já viu uma platéia de teatro dividida, onde o lado esquerdo xinga o direito porque acha o Francisco Cuoco melhor do que o Sérgio Mallandro? (ok, essa foi uma comparacão deveras tosca, mas serve ao seu propósito - a propósito: gol do Fluminense)

Esse episódio recente do time do Corinthians pousando em Campinas na volta da Colômbia pra fugir da torcida que pichou a sede do clube e apedrejou os carros dos jogadores ilustra bem esse tópico. O que diabos esse bando de desocupados fazia na sede do Corinthians quando devia estar no ou indo para o trabalho? Mais importante: por que não foram detidos em flagrante?

Há muitas partes culpadas nisso tudo.

O clube comete a sua parte quando dá liberdade aos torcedores de entrar no clube durante o treinamento para cobrar dos jogadores. Que outro evento de entretenimento dá tal liberdade ao seu consumidor? O que acontece se eu tento invadir o teatro para cobrar do Wagner Moura, durante o ensaio, para cobrar um  Hamlet com sotaque menos carregado? No barato, aparecem logo dois negões pra me botar pra fora, isso quando o próprio elenco não vem pra cima de mim. No futebol, não. O clube tem uma dezena de seguranças que se omitem quando meia dúzia de vagabundos entram no treino pra botar dedo na cara de jogador e ameacar bater em todo mundo se perder uma partida. Obviamente o clube cumpre uma agenda de interesses quando permite que isso aconteça, e aí, depois, fica a mercê dos vagabundos que manipulou.

(Como esse é um blog de opinião, vou falar o que eu acho do papel da imprensa nisso. Posso estar falando um monte de bobagem, manifestem-se a vontade.) A imprensa tem uma grande parte nisso também. Primeiro porque tem muita gente que faz essas palhaçadas porque sabe que vai ter repercussão. Se a imprensa divulgasse os protestos pacíficos e omitisse as badernas, esses vagabundos iam rapidinho se adaptar ao que quer que lhes desse mais ibope. Além disso, a imprensa hoje é extremamente voltada para o lucro. A imprensa deveria ter um papel educacional, deveria mostrar às pessoas o que é certo de se fazer, o que ler, como se comportar, e não estampar o que o povo quer ler. A massa não tem educação e por inércia vai querer se manter assim. A capa do jornal não deveria ter gente morta, futebol e mulher pelada, temperado com expressões chulas. O jornal deveria educar as pessoas. Mostrar o que é bom. Estimular as pessoas a fazer algo de bom com as suas vidas, destacar os bons exemplos. Não quero de maneira nenhuma estimular jornais cult e com notícias cor-de-rosa. É preciso saber que este é um mundo cão, onde o sujeito mata a namorada por dirigir a palavra a outro homem, onde crianças são largadas em latas de lixo por mães drogadas, onde um sujeito mantém a filha em cativeiro por 20 anos e a engravida seguidas vezes. É preciso conhecer os perigos para saber se prevenir contra eles. E o jornal deve, sim, usar uma linguagem que o aproxime do leitor e estimule a leitura, mas não estampar coisas como "A chapa esquentou e o caveirão passou geral na Chatuba". Porra, que valor o jornal está agregando aos seus leitores com isso? Falei tudo isso pra chegar no papel da imprensa nessa questão dos torcedores. Usando uma linguagem coloquial até demais e dando ênfase aos atos de vandalismo nas manchetes, a imprensa retrata esses retardados como heróis, dando maior estímulo para que atitudes psicopatas como essas se repitam. Como pode a imprensa se colocar contra tais atos com manchetes do tipo "Gaviões bolados destroçam SUVs dos marajás da bola"? Isso é repudiar? Aliás, como pode alguém se dizer contra tal ato dizendo que o "repudia veementemente"? Se eu xingo minha mãe e ela me diz que "repudia veementemente essa atitude", eu xingo ela de novo pra parar de frescura e falar direito. Se a imprensa quisesse mesmo contribuir para o fim dessa baderna, botava a foto 3x4 de cada um na capa do jornal chamando de "bandidos desocupados e vagabundos". Mas isso não ia vender, ia jogar os torcedores contra ela, ia diminuir a circulação, então ela também se omite e não cumpre sua função social. Manifesta seu politicamente neutro e correto "repúdio veemente" e continua vendendo jornal com a foto dos bandidos retratados como heróis justiceiros defensores da moral e bons costumes da família na capa.

Eu já fui assim, fanático. Via o jogo na TV urrando com o time. Me revoltava com muitas coisas e ainda me revolto. Mas fraturar a perna jogando bola foi bom pra me acalmar. E o tempo, aliado a inteligência com a qual fui premiado, ajudaram a enxergar as coisas de outro modo. Continuo pagando absurdos de dinheiro por camisas cujo custo de produção provavelmente não chega a 20% do valor de venda. Tenho ciência do absurdo dessa situação. Mas hoje consigo enxergar melhor que é estúpido investir em algo que sabidamente não vai trazer retorno, seja no plano financeiro ou emocional. E a tão aclamada paixão futebolística é um caso claro desse tipo. Torcedores gastam rios de dinheiro em camisa, boné, casaco, chaveiro, capa de celular, ringtone, toalha de banho, toalha de mesa, o diabo. Tudo isso para não ter retorno nenhum do clube de coração. Nenhum. Zero. Especialmente no terceiro mundo. O torcedor joga o seu salário na mão do dirigente do clube de coração e não recebe absolutamente nada em troca. Nem mesmo um time decente, porque o nível do futebol praticado hoje é baixíssimo. O torcedor sofre no estádio ou em frente a TV, briga com outras pessoas em defesa do seu clube, e, no entanto, ninguém no clube faz idéia de quem é você, você nunca recebeu ao menos uma carta xerocada do presidente do clube agradecendo seu investimento no clube, você não recebe um título de sócio torcedor em troca de um ano comparecendo aos jogos, nada, niente, zero. Sem falar em todo o sacríficio de encarar fila pra comprar ingresso debaixo de sol, no horário que você deveria estar trabalhando, muitas vezes tendo que assistir policiais militares se confundindo com cambistas, apanhando desses mesmos policiais quando a revolta na fila chega ao ápice, etc. E ainda que você tenha a sorte de ver um bom time se formar e ser campeão, a menos que você seja torcedor do Barcelona, Real Madrid ou Manchester United, ainda passará pela humilhação de ver os melhores jogadores esnobarem seu time para ir jogar em outro que ele considera melhor.

Ok, nesse ponto de recompensa talvez não difira muito de um filme ou uma peça de teatro, exceto talvez por iniciativas de crowd funding. Mas você não sofre, chora e se descabela porque o Harrison Ford está com um 38 na mão, frente a frente com um turco girando uma espada. Se você não recebe nada físico ou financeiro no final, pelo menos você leu ou ouviu textos redigidos com cuidado, melhorando seu vocabulário, no ar condicionado, sentado numa cadeira confortável, e, se der sorte, numa sala silenciosa. No teatro você, além disso tudo, ainda recebe os agradecimentos do elenco pela sua presença ao final do espetáculo, coisa cada vez mais rara no futebol. E é assim que deveria ser: você compra seu ingresso com conforto, senta na poltrona acolchoada que você escolheu, recebe um injeção de algo positivo (um bom texto, risadas, boas atuações, boa música, o que seja), libera endorfina, não briga com ninguém e vai para casa melhor do que quando chegou.

Pra fechar, eu mesmo já critiquei muito a falta de ambição dos últimos grandes jogadores do nosso futebol, Ronaldo, Adriano, Ronaldinho, Robinho, por eles não terem a ambição de um Romário, por exemplo, de querer a todo custo ser o melhor do mundo, mas quer saber? Eles também não estão de todo errados. Os clubes pagam fortunas porque querem. A carreira é curta. Ao contrário dos empregos normais, onde tu pode ir pra casa todo dia encontrar tua família, os caras ficam a semana concentrados com um monte de macho e passam os melhores anos de suas vidas viajando a cada 3 dias, com uma fortuna esperando para ser gasta no banco. Os caras têm o direito de curtir a sua vida e seu dinheiro como qualquer outro trabalhador. Todo mundo acha lindo o Gianechini saindo do restaurante de madrugada numa quarta feira no Leblon. Por que o jogador é irresponsável se faz o mesmo?

Futebol é entretenimento, gente! Só isso!

Ronaldinho, Adriano curtindo a vida

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