Ray

O filme em uma palavra: INDISPENSÁVEL!!
O melhor do filme: sem dúvida nenhuma, Jamie Foxx. Ele não interpreta, ele É Ray Charles.
O pior do filme: sem sombra de dúvida, o diretor, pelos motivos abaixo descritos.
Vamos ao filme!: bem, até a metade do filme, eu pensei, eu realmente acreditei que o diretor fosse capaz de ser tão extremamente ruim a ponto de conseguir transformar a atuação monstruosa de Jamie Foxx em pano de fundo para uma bobajada de flashbacks e cenas disconexas. Das duas uma: ou meu sexto sentido falhou, ou quem fez a primeira metade do filme, não fez a segunda.
A primeira metade do filme é um sem fim de flashbacks sem eira nem beira, e um bando de cenas em câmera lenta. Aliás, fica aqui um alerta: desconfiem de filmes com abertura em câmera lenta. Aliás, o início do filme é uma baita decepção: na entrada dos créditos iniciais, aparecem as mãos de Ray tocando os acordes de "What I'd Say" ao piano, para depois cortar para um início abstrato em câmera lenta mostrando lençóis ao vento. Mas voltemos ao fio da meada. Como eu dizia, é um sem fim de flashbacks. E o diretor parece achar que dirige um filme de terror, ao enfiar goela abaixo flashbacks de Ray com um cadáver numa poça sem aviso prévio. Aliás, na minha opinião, esse é um grande deslize deste filme: a narrativa não-linear. Eu sou da opinião que, se um filme se dispõe a narrar a vida de uma personagem, ou mais ainda, se tenta mostrar na tela a vida de um monstro como Ray Charles, eu particularmente acho interessante que se faça uso de uma narrativa linear, de modo a permitir ao espectador entender que caminhos o personagem criança escolheu percorrer, dando forma ao personagem adulto. Ao inserir uma narrativa não-linear, acho que se perde bastante na (des)construção do mito / personagem. Além disso, ainda no terreno dos caminhos entre a formação e definição da personagem, chegamos ao final do filme sem saber quem foi Ray Charles na sua adolescência, período definitivo na formação de qualquer ser humano. O filme mostra flashes da infância de Ray até os 7, 8 anos (aqui, uma mea culpa: o filme mostra com bastante veemência o impacto da morte do irmão de Ray sobre a infância e o resto da vida deste), e vai direto para os 16+ anos, ignorando o período que ele passa na escola para deficientes.
Porém, quando tudo parece perdido, eis que uma boa alma, ou algum arcanjo iluminado, resolve dar uma bola e permitir que o filme flua como um filme de verdade, contrariando o padrão "saco de cenas" predominante até então. E é a partir daí que o filme se torna indispensável, do ponto de vista musical (sou obrigado a admitir que a partir daí tava pouco me fodendo para análises cinematográficas). É extraordinário ver como vários sucessos dele surgiram de situações, no mínimo, inusitadas, como "Hit The Road, Jack", "What I'd Say" e "Georgia On My Mind".
E este pedaço do filme me faz sentir na obrigação de me curvar perante a coragem do diretor, ao desviar do caminho fácil da homenagem e reforço ao mito, escolhendo trilhar o retrato contundente do ser humano Ray Charles, drogado desde o início da carreira, e que usava a cegueira e a estrada como desculpa para se manter fiel as drogas e as mulheres da estrada. Em alguns momentos, chega a ser digno de raiva a insistência de Ray em se manter fiel as drogas, ignorando a mulher, os filhos e os amigos. Mostrar a vergonha de Ray perante a imprensa na cadeia, e todo o seu envolvimento com a polícia de maneira bem próxima a realidade só me faz exaltar mais ainda a atuação de Jamie Foxx e o bom trabalho do diretor, cujo nome confesso desconhecer.
Porém, após o fim de sua desintoxicação, o diretor volta a nos brindar com sua incoerência, passando batido pelo tratamento psicológico de Ray, o que, pelo menos para mim, seria algo muito interessante a se retratar, visto os traumas de sua infância pela morte do irmão, e pela cegueira prematura. E logo após mostrar o pedido de desculpas público da governo da Geórgia (aliás, aqui cabe uma observação pessoal: acredito que seria bem mais interessante ter colocado a filmagem original do evento, do que a reprodução cinematográfica), abruptamente o filme acaba! Na boa, eu não saco quase nada de Ray Charles, mas será que ele não teve NENHUM fato marcante, seja na vida profissional, seja na vida pessoal, após se livrar da heroína?!
Na minha opinião, se desperdiça uma excelente chance de colocar no colo dos maquiadores o Oscar de maquiagem, ao deixar de lado a oportunidade de mostrar Jamie Foxx caracterizado como Ray Charles em sua terceira idade. Aliás, se por um lado se deve louvar o trabalho de caracterização, que faz com que confundamos Ray Charles e Jamie Foxx (Fabico, vai tomar no cu, pega foto dos dois no Google e tu vai ver que os dois não têm nada a ver!), o pessoal da maquiagem não devia estar mesmo a fim de trabalho, pois Ray permanece dos 17 aos 50 anos com a mesmíssima cara, sem ruga ou barriga, ele simplesmente NÃO ENVELHECE! Além disso, acho que algumas cenas reais de shows seriam interessantes, até para aproximar um pouco mais o público da personagem.
Agora, saindo um pouquinho da tela, é impressionante a evolução de Jamie Foxx. Em sua primeira aparição de peso, ele dá conta do recado com sobras em "Um Domingo Qualquer", de Oliver Stone. Depois do caça-níqueis "A Isca", ele voltou a se destacar, e MUITO em Colateral, contracenando com Tom Cruise. E agora definitivamente explode com Ray. Pra mim, vai ser meio bastante difícil desvencilhar Jamie de Ray, pela intensidade da representação, e pela qualidade da caracterização. Essa foi a atuação definitiva de Jamie Foxx.
E sobre a trilha sonora... bem... a trilha sonora... É HUMILHANTE!!!!! Assim que achar, eu COMPRO!!




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